
Suponhamos, leitor, que acordássemos, um dia, dois séculos atrás. Em um momento em que o pudor era ainda maior e não voltado ao egocentrismo, mas a um valor social aterrorizante as vistas da atualidade. Os homens fechando as portas por trás de si e a berrar como nômades ‘rudimentares’ perdidos na idade moderna, impondo-se sobre as mulheres caladas, que, sentadas devidamente com seus espartilhos, mostrariam mãos delicadas de ‘nada-fazer’...
Eu sempre acho essa cena cheia de graça. Pensar em como estamos frente aos séculos das descobertas pré-tecnológicas (...) Pois é. Escrevo assim porque hoje tudo o que se descobre são formas de modernizar os celulares e televisões. Como se não se pudesse mais descobrir nada –e eles afirmam isso, quase que literalmente! Eu não penso assim. Descobrir sentimentos poderia ser um bom ponto de partida para a evolução dessa humanidade que parou no tempo e agora se vangloria por ter um Iphone 4s e usar roupinhas retro. –“Alôw, sou cult, amo roupas vintage e sou ligado 24h no meu instagr.am” UHaHushSaus
Pois é. Daqui a pouco tempo acho que não haverá muita diferença no comportamento das pessoas do mundo inteiro. A globalização favorece isso, o que é bom, em partes... Mas ainda há quem me mande e-mails perguntando: “Me mata uma dúvida? Como chegam as informações ao Acre? Lugar tão longínquo, tão esquecido, tão pouco comentado?”. Eu paro e penso: Quanta limitação, heim? A internet existe e alcança até as aldeias indígenas do fim do mundo, a TV está aí com todo o seu sensacionalismo e eu aqui, falando pro nada, porque vocês mesmo tendo informação facilitada pela rede, não lêem nada que não seja o resumo da novela...
Se os homens voltassem a querer pisar na Lua, eu pensaria pelo menos que ainda há um pouco de romantismo por aí... Mas vá-se lá... Sentimentos são extintos. Tenho visto isso, comprovado.
Em vista do quê, você, leitor, que se emociona com os clichês das comédias românticas pegaria com um gesto empenhado alguns poemas e leria com a mesma intensidade que chora e se arrepia ao ver um quase nada daqueles?
Eu tenho medo mesmo das gerações que se sucedem a esse modo de ser, de ver as divas pop se melando em sangue no palco como se fosse o ápice da ousadia. O avançar dos tempos me atordoa. Vão os homens esquecendo que viver não é só existir e a encher a cara e satisfazer seu ego, inflando atributos pessoais tão fúteis quanto a modinha dos celulares hiper-caros.
É curioso, no mínimo, pensar sobre isso. Vocês como eu, se perderiam de uma forma descomunal dentro de qualquer sociedade não tão antiga. Eu, pelo menos, tenho certeza que seria queimada ou presa se nascesse mulher na era medieval ou nos mil e oitocentos... Só que cada momento tem seus primores, suas vantagens, seus delírios e vanglórias.
Eu só espero que não tenhamos chegado em 2012 céticos de tudo. Mesmo com tanto trauma guardado sobre os erros da igreja antiga, mesmo com a perda do valor de ler a arte, mesmo com o tempo perdido e desperdiçado em frente aos computadores, mesmo com a sociedade que é ao mesmo tempo mais livre e mais presa aos medos, mesmo fingindo não ver a inexorabilidade da morte. Chegou 2012! Que o fim do mundo não seja o apocalipse, mas sim fato social: o princípio de uma nova era. Algo melhor pelo menos em evolução almática para os seres humanos.

(Imagem de Grigory Gluckmann, edição por Clara Campelo)
PS: Releve alguma ausência de lógica, lembrem-se que é sempre assim, o lado direito do meu cérebro é o mais ativo. uahsuhaus ;* Bom dia.